João Francisco Neto: Verdade e aparências

Consta da crônica política internacional que quando o então primeiro-ministro inglês, Sir Winston Churchill, anunciou que faria sua primeira visita oficial aos Estados Unidos, a elite norte-americana ficou toda alvoroçada. Imaginava-se que a visita seria cercada por um rígido cerimonial, pois Churchill, além de representante do governo britânico, era um lorde do Almirantado, nascido num dos maiores e mais belos castelos ingleses, no seio da mais alta nobreza (era neto do Duque de Marlborough). Era também um herói de guerra, escritor e jornalista consagrado, historiador, estadista, e grande estrategista militar. Como se vê, o homem não era pouca coisa, não.

Os preparativos para recebê-lo na Casa Branca foram os mais requintados possíveis: pratarias, delicados cristais, vinhos franceses da melhor safra, além de muita pompa e circunstância. Mas, qual não foi a surpresa dos anfitriões, quando Churchill, muito à vontade nos jantares na capital americana, falava alto e gargalhava com a boca cheia, contava piadas, derramava vinho nas toalhas de linho, tirava os sapatos sob a mesa, fumava charutos, etc. Todos ficaram perplexos e, até certo ponto, desapontados, já que Churchill em nada se parecia com tudo aquilo que se imaginava e se esperava dele: era uma pessoa normal, como todas as outras.

O relato desta historinha sem nenhuma importância serve para ilustrar um fato que sempre acontece com todos nós: levados pelas aparências, fantasiamos as coisas e fazemos juízos equivocados e, por fim, acabamos por agir de forma errada. Isso ocorre no nosso dia-a-dia e, por mais que saibamos dessas limitações, continuamos a fazer julgamentos antecipados, fundamentados simplesmente nas aparências e no que ouvimos dizer, ou tão somente pelo que pensamos que vemos ou sabemos.

O que ocorre é que tudo o que vemos nos leva à formação de uma opinião, de um juízo, mas, na maioria das vezes, não temos condição de aferir qual é a verdade dos fatos. Às vezes, mesmo quando confrontadas com a verdade, algumas pessoas preferem adotar outra versão, mais interessante, ou mais conveniente, ainda que não corresponda à realidade. Por fim, existem aquelas pessoas que consideram que a verdade é relativa, pois depende de cada circunstância.

Ao longo da existência humana, muito filósofos tem se ocupado da busca pela verdade. Platão, na antiguidade clássica grega, em sua “Alegoria da Caverna”, demonstrou o quanto o nosso entendimento pode ser distorcido por fatos que pensamos que vemos claramente, mas que, não obstante, não correspondem à verdade.

Por fim, num dos mais famosos diálogos já travados, relatado no Evangelho Segundo São João, Pilatos indaga a Cristo: “O que é a Verdade ?” De acordo com a palavra do Evangelista, diante do silêncio, Pilatos não aguarda a resposta, e sai em seguida.

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