Nelson Bechelli, uma vida pela Vida

Aos 89 anos completos na segunda-feira, Nelson Bechelli  é garantia de atendimento médico SUS qualificado e humanizado de quem abraça a profissão em nome da fortuna do homem

 

“Trabalho no Posto de Saúde da Família do Jardim do Lago, em Monte Aprazível, onde dou expediente todos os dias, de manhã e à tarde, até o último paciente.. Na sexta-feira, os meus colegas de serviço comemoraram comigo meu aniversário,  que é na segunda, dia 26.  Soou médico e completo 89 anos. Me formei em medicina em 1.955 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sou natural de Mogi Mirin, mas saí de lá muito pequeno, porque a minha família é de Bauru. Meu contato com essa região se deu através de meu pai, que morava em Rio Preto.

Em 1.957, formado há dois anos me mudei para Santa Fé do Sul e em janeiro de 1.968 vim para Monte Aprazível, onde permaneço até hoje e lá se vão 50 anos em Monte Aprazível.

Quando aqui cheguei já vim casado (com Maria Elisa) e com três filhos, Mário, Suzana e José Guilherme. Naquela época, exercer a medicina era muito difícil, pois não havia recursos. Só havia um ortopedista em toda a região, então nós tínhamos que fazer ortopedia nessa região inteira, mesmo sendo clínico geral.

Em Santa Fé do Sul eu tive uma clínica e um dos colegas fazia laboratório e naquela época fazíamos os testes de gravidez em sapos, é o método chamado galimanini, que consiste em injetar a urina da gestante num sapo macho e posteriormente analisar a urina do sapo, se tivesse espermatozoides na urina, a mulher estava grávida. Naquele tempo só existia esse método e outro que se fazia em coelho, mas o teste do sapo era mais prático.

Minha vinda para Monte Aprazível se deu através de meu tio Calimério Bechelli. Naquela época só tinha três médicos em Monte Aprazível e um foi embora, e com dois médicos não havia como trabalhar, meu tio então me convidou para vir pelo menos temporariamente e eu vim porque conciliei os estudos dos meus filhos. Santa Fé naquela época era muito precária, não tinha água, só de poço, não tinha energia, só de lampião, as condições em Monte eram muito melhores, não tinha comparação.

Em Monte Aprazível trabalhei no hospital e tinha um consultório no próprio hospital. Trabalhei no hospital de 1.968 até 2.000, no mesmo período trabalhei também no Posto de Saúde do município. Quando comecei a trabalhar em Monte Aprazível, em 1.968, embora fosse clínico geral fazia o serviço de pediatria, ginecologia, obstetrícia, ortopedia, não havia especialistas na região naquele tempo. Em todos esses anos de exercício da medicina nunca deixei de atender nenhum paciente e sempre me interessei por cada um deles. Dessa forma, quando me deito durmo com a consciência tranquila.

Em 2.000 me aposentei, mas continuei trabalhando, agora no PSF do Jardim do Lago. Não aguentei a aposentadoria. Preciso me manter ativo, por isso em vias de completar 89 anos não penso em parar. Só devo fazê-lo quando não tiver mais condições físicas e mentais. Trabalho por amor, não gosto de ficar parado, preciso de atividade.

A relação médico-paciente no meu ponto de vista piorou muito, menos aqui no PSF, onde estou, porque aqui temos as visitadoras que passam periodicamente nas residências e relatam a situação econômica, de saúde e de higiene dos moradores, mas de uma forma geral acho que as relações pioraram muito no SUS em razão do aumento da demanda, que diminuiu o tempo das consultas. Aqui no PSF, ao contrário, nós trabalhamos com folga. Apesar da relação médico-paciente ter piorado, as condições de uma forma geral melhoraram, hoje temos médicos especializados para a gente encaminhar os casos mais difíceis, naquele tempo não tínhamos, tínhamos que nos virar com os meios que dispúnhamos.”.

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