Grupo Moreno pede recuperação judicial para evitar execução de dívida de R$ 2 bi

Com aval da Justiça, as três usinas do grupo ficam imunes à execução de dívidas por tempo determinado

 

Em comunicado aos credores e fornecedores de cana, na última quarta-feira, o Grupo Moreno anunciou a formalização de pedido de recuperação judicial das três usinas, localizadas em Monte Aprazível, Planalto e Luis Antônio.  Ainda no documento, o grupo não informou com clareza a sua incapacidade de gerar recursos para saldar dívidas com instituições financeiras e fornecedores da ordem de R$ 2 bilhões, citando, de forma genérica, questões circunstanciais do setor sucroalcooleiro como um todo.

A recuperação judicial é instrumento jurídico que pode ser pleiteado por empresa em estado de desorganização administrativa, fiscal, econômica e financeira e em situação de pré-falência, com vistas a se recuperar mediante a apresentação de um plano de gestão que viabilize a sua reorganização, retome a capacidade de gerar lucros e saldar o passivo, em período de tempo definido.

A Justiça, convencida da viabilidade do plano de recuperação e, com anuência de uma assembleia de credores, defere o pedido, nomeia um interventor administrativo e suspende as ações de cobrança de credores, exceto, as trabalhistas e fiscais.

Segundo o jornal Valor Econômico, as dívidas somam R$ 2 bilhões. Em abril, a mesma fonte, estimou o passivo em R$ 1,4 bilhão, um aumento de R$ 600 milhões em seis meses. Ainda segundo o jornal, as negociações do Grupo com bancos credores não tiveram sucesso e a saída para evitar o pedido de falência dos credores foi a recuperação judicial. Também fracassaram as tratativas de venda de ativos (unidades industriais), intensificadas há dois meses, com a chinesa Cofco, estabelecida em Sebastianópolis do Sul.

O setor sucroalcooleiro avalia ser a venda de ativos algo muito difícil de se concretizar diante de um cenário com dezenas de usinas e destilarias em situação financeira precária à venda em todo o Brasil. Caso o pedido seja aceito, as três unidades vão se somar a um grupo de 90 indústrias de etanol e açúcar na mesma condição.

O plano de recuperação, ainda não conhecido,  deve prever a venda de ativo. A dificultar negócios, pesa o fato de nenhuma delas gerar energia a partir do bagaço de cana; a unidade de Monte Aprazível, a maior delas, e a de Planalto, estão fora de Ribeirão Preto, região mais estratégica para o setor.

O Grupo Moreno tem capacidade para moer 13 milhões de toneladas, mas vem moendo 10 milhões, com um faturamento de R$ 1,5 bilhão. Do total da cana esmagada, 40% são de fornecedores, que terão o pagamento suspenso, caso a recuperação seja aceita.

Na prática, isso já vem ocorrendo. Segundo Juliano Maset, presidente da Associação dos Plantadores de Cana, a empresa deixou de efetuar os três últimos pagamentos. Vários fornecedores propuseram ações de cobranças nos últimos três meses e de rescisão de contratos de fornecimento.

 Reflexos

A precária situação financeira do Grupo Moreno, desde 2016, quando renegociou suas dívidas, trouxe para Monte Aprazível um clima crescente de apreensão, já que o município tem sua economia quase que exclusivamente apoiada no setor sucroalcooleiro.

Para o vereador, fornecedor e diretor da Aplacana, a situação é insustentável, sendo necessária a tomada de alguma medida. A situação menos traumática para a economia do município e cidades vizinhas, segundo ele, seria a venda das duas usinas, mas reconhece ser difícil, diante das circunstâncias do setor. Das saídas possíveis, a decretação da falência ou a concretização da recuperação judicial, afetarão ainda mais a situação econômica da cidade, embora menor com a recuperação.

Para Paiola, a suspensão dos pagamentos da cana entregue na safra e dos arrendamentos diminuirá de forma drástica a circulação do dinheiro e o consumo. O vereador explica que é justamente esse dinheiro que circula na cidade, com os tratos culturais das lavouras, compra de insumos, conserto de máquinas, pagamento de mão de obra, investimentos e gastos pessoais dos fornecedores que serão afetados. “Muitos produtores adubaram o canavial, se endividaram, deram cheques pré-datados para o pagamento, contando com o dinheiro da cana. Muitos têm o arrendamento como única fonte de renda. Estamos vivendo uma situação muito difícil e vai piorar muito, afetando a agricultura, o comércio, prestadores de serviço”, resumiu Paiola.

O pedido de recuperação foi apresentado na Comarca de São Simão, não se conhecendo ainda os planos apresentados. Da safra em curso, parte da cana moída foi paga, embora Paiola estime haver bem mais de R$ 50 milhões a receber.

No comunicado aos credores e fornecedores, o Grupo Moreno atribui à crise no mercado internacional de açúcar, ao clima adverso que afeta a produtividade e ao aumento significativo dos custos de produção como responsáveis pela sua instabilidade econômica e financeira. Salienta ainda ser a recuperação judicial o meio mais eficaz para sua reorganização e afirma ser “ainda mais necessários o comprometimento, disposição e determinação de todos os parceiros (credores e fornecedores) para assegurar a continuidade das atividades (da empresa) cada vez mais efetiva e sustentável.”

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