Prefeito de Tanabi investe R$ 2 milhões em obra que beneficia fazenda particular

Com água faltando nas torneiras, candidatos à sucessão de Norair questionam prioridade na pavimentação de marginal

 

 

O prefeito Norair da Silveira decidiu dar as costas para os tanabienses e olhar para o outro lado da cidade. Fechou os olhos para as carências do Sítio do Estado, o bairro mais pobre da cidade, para emitir piscadelas lascivas para uma fazenda privada. Ignorou a torturante falta d’água de que padece mais da metade da população, por sinal os mais pobres, para construir ponte de concreto sobre o Jataí de Cima, de onde o gado da fazenda se farta de água.

Enquanto falta investimento na cidade toda, o prefeito asfaltou mais de um quilômetro para servir exclusivamente a uma propriedade rural privada. Trata-se de marginal sentido sul da rodovia Euclides da Cunha que consumiu do conjunto da população tanabiense R$ 2 milhões, obra longe de beneficiar pessoas, mas que Norair se prepara para bater bumbo na festa de inauguração.

Nada é mais desnecessário e inútil. Não fosse assim, se existissem demanda e necessidade por riscos, a providência teria sido tomada pelo DER por ocasião da duplicação da rodovia Euclides da Cunha.

Defender a necessidade do desperdício de dinheiro público com a justificativa de estabelecimento de infraestrutura a um suposto, hipotético, e futuro Novo Distrito Industrial é desonestidade intelectual, má fé ou alinhamento orgânico ao patrimonialismo insensato e descarado das elites econômica e política que há cinco séculos condena o povo brasileiro à miséria econômica e social. O patrimonialismo é o conceito sociológico que define as elites nacionais como usurpadora das riquezas produzidas no país por mecanismos que vão da corrupção ao controle funcional e burocrático das três esferas de poder em níveis municipal, estadual e federal, passando pelo controle das políticas públicas a seu benefício.

Seria justificável o investimento no asfaltamento da área do futuro Distrito Industrial, mas jamais em uma extensão de quase dois quilômetros para se chegar a ele, enquanto pelo retorno no quilômetro 474 da rodovia se chega ao mesmo lugar, ao mesmo tempo e distância.  Do mesmo retorno se chega, também, a única fábrica em operação por ali, localizada na marginal. Por mera coincidência ou deliberado propósito, o dono da fábrica é o mesmo da fazenda, Luiz Galego Dias.

O empresário foi apoiador destacado de Norair da Silveira na campanha eleitoral de 2016, pela posição de destaque social e pelo poder de influenciar no voto de seus empregados.

A marginal, supostamente, beneficiaria os empregados dessa empresa no trajeto de bicicleta. Só que não. O bicicletário da empresa, tomado pelo mato, denúncia que não vão ao trabalho pedalando.

Reprovação

A Voz Regional solicitou dos principais candidatos a prefeito de Tanabi que comentassem a obra do prefeito.

Para o ex-prefeito José Francisco de Mattos Neto, o investimento foi um equívoco, identificado pelos técnicos do próprio DER. “Na época, o saudoso Alberto Victolo, com todo o seu prestígio, não conseguiu viabilizar a obra. O prestígio político esbarrou em critérios da área técnica do DER, porque o fluxo viário é quem justifica esta obra, além do apontamento da existência da alça de retorno (Posto 474). Por exemplo: Rio Claro, Limeira, Campinas e tantas outras cidades recebem a via marginal e geralmente a velocidade da pista principal cai de 110 Km/h para 90 Km/h. Tanabi está muito longe de ter esta demanda.”

Para o ex-prefeito, parte do superávit dos cofres municipais provém do setor de água e este setor necessita muito mais de investimento por beneficiar muito mais gente. “Não acho justo (inverter prioridades), creio que os critérios de prioridade do município estão equivocados e não foram debatidos adequadamente com a sociedade e vereadores.

Para José Francisco, com metade de dinheiro gasto na marginal por Norair, se faria uma revolução nas redes de produção e distribuição de água para atender toda a população. A outra metade poderia ser investida na infraestrutura do Distrito Industrial II a ser complementada pelos adquirentes dos terrenos, segundo ele.

Para o ex-prefeito, a administração errou a mão, já que acidade é dotada de uma pista dupla, com um retorno muito próximo, o que faz a pavimentação desnecessária e critica a obra de forma espirituosa. “A administração, talvez insatisfeita com a duplicação da SP-320, resolveu fazer a triplicação da pista e simplesmente repetir uma obra já existente. Neste caso, a administração perdeu o direito de fazer piada de português, e a sociedade e vereadores perderam a oportunidade de discutir com mais propriedade o orçamento público de modo a torná-lo mais democrático e abrangente.”

O vereador Rodrigo Bechara defende a pavimentação por acreditar que a obra beneficiará toda a cidade, futuramente, quando da instalação de empresas no Novo Distrito Industrial, “pois novos empregos significam, mas renda, girando a economia do município.” Rodrigo acredita que a pavimentação beneficia também os trabalhadores da Eirilar “que enfrentam os perigos da rodovia.”

Porém, ele entende que a prioridade de Tanabi é a falta generalizada de água nas torneiras da população, sendo mais dramática nos bairros mais populares e populosos da cidade.  “Por este motivo, a minha prioridade seria investir esses R$ 2 milhões no setor de água.”

Rodrigo, portanto, vê a obra como importante para o desenvolvimento do município e considera legítimo a Eirilar se beneficiar dela, mas defende que o município deveria ter sido ressarcido dos benefícios indiretos da obra a terceiro, como a propriedade rural do dono da Eirilar.  Segundo ele, a prefeitura deveria ter usado o recurso previsto em lei da criação de uma Taxa de Contribuição de Melhoria a ser paga pelo dono da terra.

O pré-candidato teme pela conservação da benfeitoria lembrando que se bateu pela construção de galeria de escoamento pluvial, que evitaria a rápida deterioração em duas ou três temporadas de chuva. Lamenta não ter sido atendido, mas irá cobrar a promessa de Norair de que fará, “quando possível.”

Se fosse prefeito hoje, o vereador Fabrício Missena aplicaria R$ 2 milhões na recuperação de obras deterioradas como  recapeamento do bairro Jardim Centenário, reforma de escolas e creches, no abastecimento de água, nas praças esportivas, na reforma do Parque Ecoturístico, Clube Municipal e na limpeza pública.

O vereador considera a marginal como obra importante para quando o Distrito Industrial se viabilizar, mas que não investiria recurso do município nela; tentaria verbas federais e estaduais.

Como Rodrigo, Missena também defende a taxação de contribuição de melhorias cobradas de empresas que se beneficiam e tem seu negócio e imóveis valorizados com investimento públicos.

Valdir Uchoa não coloca a pavimentação da vicinal no elenco de obras mais necessárias para a população. Para ele, o investimento de R$ 2 milhões teria satisfeito mais gente se tivesse havido debate. “Ouvir a população sobre como investir recursos públicos é uma boa forma de governar, mas algumas outras necessidades também são bastante conhecidas”, citando a reativação do Clube Municipal, monitoramento da cidade por câmeras de segurança e implantação da atividade delegada, construção de uma parque crianças, construção de um centro cultural, pavimentação dos bairros José Onha e Vila Rica, criação de espaços de lazer para jovens e idosos nos bairros rurais, revitalização da Avenida Diego Carmona e da ciclovia e o fim da falta de água.

Porém, Valdir não condena a obra e lembra que ela fez parte de seu programa de governo na campanha de 2016. “Acho que foi um bom investimento, uma vez que vai levar desenvolvimento para aquele lado da cidade, principalmente para o Distrito Industrial onde serão gerados novos postos de emprego, isso sem contar a segurança das pessoas que trabalham naquela localidade.”

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