A Arte e a Descrença

Na véspera do dia da Consciência Negra, data marcada pela reflexão e pelo reconhecimento das dificuldades por que passam muitos cidadãos brasileiros, mais uma vez fomos presenteados com a atitude destemperada e descabida de um parlamentar.
Num verdadeiro ataque de nervos, o Deputado Federal do PSL, Coronel Tadeu, arrancou da parede um cartaz que integra uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra no Congresso Nacional, quebrando a moldura e atirando-o ao chão, tudo isso devidamente filmado e registrado por testemunhas.
A charge retrata um jovem negro vestindo uma camisa estampada com o centro da bandeira do Brasil, algemado e caído no chão; à sua frente um homem fardado com uma arma fumegante na mão, deixando a cena. No cartaz havia a inscrição: “O genocídio da população negra” e mais abaixo trazia dados da pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, que trouxe para o centro das discussões dados horríveis sobre a realidade da população negra no Brasil. A pesquisa trás, dentre outros dados, que aproximadamente 53% da população se declara parda ou negra, que mulheres negras têm menores oportunidades no mercado formal de trabalho e que a maioria das pessoas que vive abaixo da linha da pobreza é negra. Mas o que impressiona é o número representativo da população carcerária, mais de 70% são negros e pardos, e 75% das vítimas de homicídios são jovens negros.
Negar dados estatísticos coletados por meio de pesquisas científicas tem sido uma prática contumaz de algumas autoridades nos dias atuais. Daí a importância da divulgação dessas informações para que todos tenham noção do que acontece na realidade do cotidiano de nossas cidades, além de propiciar, de fato, uma reflexão sobre as ações que deverão nortear as nossas políticas públicas. É verdade que a charge em questão faz uma generalização perigosa, porque nem todo homem fardado é um homicida em potencial e nem todo jovem negro é uma vítima de um destino é imutável. Mas é preciso também entender que a arte pode causar perplexidade e provocar crenças e convenções cristalizadas, mostrando cenas que podem constranger e atiçar o ímpeto de quem a aprecia.
Entretanto, o despautério da atitude do parlamentar foi seguido de uma justificativa pífia, na medida em que o Deputado justificou sua atitude como “uma defesa de seiscentos mil policiais militares…”, além de afirmar não estar arrependido e que “faria tudo de novo”.
Compete alertar ao Deputado que ele, melhor do que ninguém, detém nas mãos o poder de apresentar projetos em defesa dos policias militares, procurando melhorar as condições de trabalho desses profissionais e contribuir com o futuro de suas famílias, auxiliando com propostas que venham aprimorar as condições de saúde e educação.
Mas, convenhamos, arrancar um cartaz de uma exposição e posar de truculento para câmeras somente demonstrou a bizarra falta de convivência com a democracia que o levou ao cargo de deputado, além de reforçar a imagem do homem fardado
que a charge tentou imprimir.

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