Consciência Negra

De um modo geral, a abolição da escravatura no Brasil sempre foi apresentada pelos historiadores como a principal peça no processo de liquidação da monarquia. Assim, a libertação dos escravos teria ocorrido num contexto em que a monarquia, não tendo mais como se sustentar, teria dado um último espasmo, em seus instantes finais.
Desde o início do século 19, a Inglaterra vinha exercendo forte pressão para que o Brasil não só interrompesse o tráfico, mas, também, promovesse a libertação dos escravos. Mas, os ingleses não eram movidos apenas por belos interesses humanitários.Com a Revolução Industrial em marcha, o que eles pretendiam mesmo era assegurar mercados e consumidores para os seus produtos manufaturados.
Havia no seio da sociedade brasileira intensos movimentos pelo fim da escravidão. Eram movimentos que envolviam as camadas
médias da população urbana, intelectuais, jornalistas, profissionais liberais, entre outros. Contra a
libertação dos escravos estavam os grandes proprietários rurais, comerciantes de escravos, representantes políticos das elites e
o próprio governo imperial. Paralelamente, ocorriam fugas e rebeliões de escravos, com formações de quilombos, dos quais o mais famoso foi o de Palmares, onde reinou Zumbi.
Isso tudo está nos surrados livros de História, que quase ninguém mais lê, pois, enfim, o que importa tudo isso hoje? Em que situação se encontra a maioria do povo que descende dos antigos escravos?
Como o Brasil encara essa situação, e o que tem sido feito para realmente mudá-la? Os movimentos negros
abandonaram as comemorações oficiais pelo dia 13 de maio, e hoje a luta pela emancipação das populações negras é simbolizada
por Zumbi dos Palmares.
Emancipação essa que ainda não ocorreu pois, decretada a abolição, não houve nenhum projeto para integrar aquelas pessoas, que, de uma hora para outra, viram-se “livres” para iniciar uma vida “nova”, mas já marcadas por estigmas e preconceitos.Não houve indenizações, não houve acesso a terras; enfim, não houve nada que impulsionasse os ex-escravos para uma atividade
produtiva. Uma parte acabou ficando nas próprias fazendas; grande parte foi substituída pelo trabalho dos imigrantes italianos; e outra parte foi para as cidades, passando a ocupar as áreas de periferias e morros, de onde não saiu até hoje.
Dessa forma, a tão saudada “abolição” ainda permanece incompleta. O Dia da Consciência Negra deve ser, então, uma oportunidade para refletirmos mais sobre esta, que é considerada a questão mais importante (e não resolvida) da História do Brasil.
O historiador Laurentino Gomes (“Escravidão”, vol.I) lembra que, às vésperas da Proclamação da República, o grande abolicionista
Joaquim Nabuco já previa que a grande questão da democracia brasileira não era a monarquia, mas sim a escravidão. Um diagnóstico que continua válido até nossos dias.

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