A (in)consciência negra

A pequena Maria Alice que emocionou muitas pessoas ao se identificar com a âncora do Jornal Hoje, Maju Coutinho, motivou uma discussão sadia sobre a questão da identidade, do processo de reconhecimento de cada indivíduo perante seu grupo social. A menina de pouco mais de dois anos demonstrou claramente sua alegria ao ver refletida na televisão a imagem de alguém semelhante a ela.
Esse fato aconteceu quase que no mesmo tempo em que outra figura pública, Cacau Protásio, foi agredida por gravações compartilhadas num grupo de whatsapp, numa demonstração inequívoca de preconceito rasteiro. Na gravação, uma voz masculina reclama que uma “preta, gorda e f…” está usando a farda da corporação, na gravação de uma cena de um filme, como se fosse uma degradação moral do Corpo de Bombeiros.
A aparição de pessoas negras nas propagandas comerciais, na linha de frente de programas jornalísticos ou como protagonistas de quadros de humor e de novelas é um fato novo no cotidiano e tem demonstrado a preocupação de segmentos culturais em tornar visíveis as pessoas até então ignoradas pelo público em geral. O que os produtores culturais entendem é que essas aparições são relevantes para que outras pessoas passem a acreditar ser possível alcançar sucesso e possam ver refletidas suas manifestações e tradições.
Entretanto, na contra mão desse protagonismo televisivo e contrariando toda a construção de uma nova visão política, foi nomeado como presidente da Fundação Palmares um homem que não se reconhece como indivíduo integrado nesse movimento. Sérgio Camargo, jornalista e empossado presidente, fala em desconstrução do movimento negro e de uma escravização do pensamento das pessoas promovida pela ideologia de esquerda, que insiste em vitimizar os negros. Afirma em suas falas que a escravidão foi cruel, porém trouxe benefícios para os afrodescendentes que permaneceram no Brasil, sem explicar onde e quando foram alcançados os tais benefícios.
Não se trata de retirar de quem quer que seja o direito de expressar suas opiniões, porque ainda vivemos numa democracia. Mas é lamentável que uma pessoa venha a ocupar um cargo num espaço público edificado pelo movimento progressista e tenha a desfaçatez de tentar reduzir a sua grandeza num discurso pífio e desamparado de qualquer consistência argumentativa, desfiando uma verborragia agressiva e totalmente desconectada com a realidade. Diversas pesquisas de institutos reconhecidos por sua ética e compromisso público demonstram quão maléfica foi a escravidão para os povos que foram sequestrados da África. Além disso, o país ainda carrega a vergonha de ter sido um dos últimos a abolir essa ultrajante prática de comércio de seres humanos. Foi preciso uma decisão de um juiz da 18ª Vara da Justiça Federal do Ceará suspender a nomeação do jornalista, atendendo a uma ação popular, reconhecendo que as declarações do então empossado ofenderam o segmento que deveria proteger.
Na verdade, o Executivo Federal tem manobrado a opinião pública por meio de artifícios, tentando manter a aparência de uma gestão democrática não eliminando instituições reconhecidamente progressistas, mas nomeando para postos chaves de organismos pessoas sem nenhuma qualificação ou produção intelectual que as sustentem nos cargos, como no caso do Presidente da FUNARTE e da Biblioteca Nacional, dentre outros nomeados. O desmonte está sendo feito da pior forma possível e sob o enganoso slogan da nova política e da meritocracia.

Categorias: Artigos