A Violência banalizada

Há um aspecto da vida dos brasileiros que piorou muito: o aumento da violência e da insegurança. Para resumir, ninguém mais vive tranquilo neste País. Todos se perguntam onde foi parar aquela tranquilidade de que desfrutavam as pessoas que moravam nas pequenas localidades, e em alguns bairros tranquilos das grandes cidades. Hoje, a violência e a insegurança são tamanhas que até o campo, as fazendas e os sítios transformaram-se em locais muito perigosos para se viver.
Não é preciso sair de casa para constatar isso; basta ligar a TV ou ler um jornal. A cada dia, novos casos se sucedem, cada um mais pavoroso do que o outro. É a violência nas escolas, em que alunos se agridem, e agridem professores; é a violência nas ruas, em que, a qualquer hora, podemos ser surpreendidos por um assalto; é a violência no trânsito, em que, por qualquer coisa, motoristas em fúria partem para agressões físicas; é a violência em casas noturnas, em que jovens, por motivos banais, são espancados; são gangues que agridem pessoas nas ruas, simplesmente porque não concordam com sua orientação sexual; são menores de idade que, na certeza da impunidade, cometem crimes violentos, etc. Enfim, essa lista é cansativa e está longe de chegar ao fim.
Em sua obra “O mal-estar na civilização”, de 1930, Freud dizia que o homem, na sua essência, não é uma criatura gentil; ao contrário, tem um instinto natural para a agressividade. Daí que o homem “civilizado” seria aquele que teria recebido um “treinamento” para inibir e conter a sua agressividade natural, como se tivesse sido “domesticado”. Infelizmente, estamos vivenciando isso.
Já no século 17, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), estudioso da natureza humana, cunhou uma frase conhecida por todos os estudantes de Direito:” o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus, em latim). O homem agride o homem por puro prazer, para roubar, por inveja, por preconceitos, por motivos religiosos, políticos, raciais, culturais, financeiros, etc.
Hannah Arendt, que esteve em Jerusalém para acompanhar o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann, criou o conceito da “banalidade do mal”. Durante o julgamento, o carrasco nazista, desprovido de qualquer juízo moral crítico, revelou toda a sua frieza, ao dizer que matava porque “cumpria ordens superiores”. Para ele, era só mais um “serviço” a ser burocraticamente executado; o que importava era o estrito “cumprimento do dever legal” que lhe cabia como funcionário do Estado Nazista.
Daí, a banalização do mal, como se fosse tão somente uma questão de cumprimento do dever. Infelizmente, o serviço público continua cheio de tipos dessa natureza: funcionários medíocres, que, ocupando cargos de mando e chefia, agem como pequenos tiranos, escorando-se no desgastado argumento do cumprimento do dever legal.
Infelizmente, o mal e a violência são questões que continuam atuais na vida de todos nós, bem como o pensamento da filósofa Hannah Arendt, que foi objeto de uma questão da mais recente prova do Enem.

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