O FETICHE DOS TÍTULOS

Não é de hoje que o Brasil é conhecido com a terra dos “doutores” e bacharéis. Por aqui, o simples fato de alguém ocupar um alto cargo, uma direção, ou seja, lá o que for, já basta para que o dito cujo passe a ser chamado de “doutor”. Nas grandes empresas e instituições públicas, então, isso é quase uma lei: o “pessoal de cima” será sempre “doutor”. A ironia nisso tudo é que os verdadeiros doutores – com doutorado – raramente são chamados de doutores.

Aliás, a maioria nem faz questão disso, reservando o título apenas para citação no currículo. O fato é que vivemos num país estranho, onde as aparências enganam muito. Nessa linha de raciocínio, supõe-se que aqueles que ocupam os mais altos cargos sejam sempre detentores de mais conhecimentos do que os demais, que estão “por baixo”. Mas, sabemos muito bem que as coisas nem sempre são assim.

As altas posições são ocupadas pelas mais diversas razões: a primeira e a mais importante é a política. Conduzida pelos braços da política, qualquer pessoa pode ocupar qualquer cargo neste país, e isso já está fartamente provado e comprovado. Não menos importantes são as relações de parentesco, compadrio e puxa-saquismo, práticas que, tendo aportado por aqui nas caravelas lusitanas, encontraram um solo fértil para se enraizar e florescer.

Neste quadro lamentável, o indivíduo que milita nos partidos do poder já terá meio caminho andado para ascender aos mais altos cargos da República.
Tão logo se proclamam os vencedores das eleições, dá-se a largada para uma verdadeira corrida em busca das melhores posições. Nessa hora, salvo raras exceções, ninguém está pensando em coisas como adequação ao cargo, preparo técnico, etc.

Os vitoriosos dessa corrida emergirão como os novos “doutores”, aos quais uma legião de servidores deverá obediência. Já no cargo, ninguém mais ousará questionar o título de “doutor” do novo mandatário, que lhe confere um discreto charme. Há casos em que a “autoridade” pode até ser mesmo detentora desse título, o que também não quer dizer muita coisa, pois o que não falta é gente absolutamente vazia e desinteressante, laureada com títulos acadêmicos.

O resumo de tudo isso é que os altos cargos conferem à pessoa a ilusão de que ela é mais capaz do que as outras, pois o que ela diz ou escreve não só tem a força normativa da hierarquia, mas, também, a suposição de que seja fruto de uma mente intelectualmente mais bem preparada.

Como o fetiche do cargo e dos títulos é algo avassalador, essa é a imagem que fica para o público em geral: se fulano ocupa o mais alto cargo daquela instituição, o povo imagina então que deva ser ele o que mais sabe. De fato, isso é o que deveria ser, mas, infelizmente, nem sempre é. Daí que, neste mundo de aparências, o título de “doutor”.

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