Páscoa de recolhimento e oração, recomendam padres

Nunca, a Páscoa, rito católico da reflexão sobre a vida, foi tão apropriada para o isolamento, regra um em tempos de coronavírus. Com mais de oitenta anos, o homem José se pôs na frente do Padre Viana, trocou o missal pela cartilha de orientação da Organização Mundial da Saúde, e suspendeu o rito pascal na Capela da Santa Casa, onde é capelão. O gesto, necessário a ele, indicava aos fiéis da necessidade do recolhimento e da oração solitária que produz uma relação mais intensa com Deus.

Padre Carlos Eduardo Nascimento, pároco da matriz de Nossa Senhora de Fátima em Monte Aprazível, diz que essa Páscoa é diferente de todas as outras em todos os sentidos, tanto como pessoa, como religioso, como cristão. Diferente pelo fato de não ter todo o rito religioso que é tradicional na Páscoa. “Mas essa Páscoa está nos levando a voltar mais para Deus. A reflexão pessoal que eu faço desta Páscoa é que tudo isso me levou a rezar bem mais, me levou a voltar bem mais a oração pessoal, a pensar mais na minha relação com Deus e também na minha relação com os irmãos e irmãs, na minha relação com os outros. A Páscoa sempre será Páscoa, independente do momento que estamos passando, Páscoa é alegria da ressurreição e da vida plena que vem do Nosso Senhor Jesus Cristo e é essa alegria que nós também temos que transmitir aos outros”.

O frei Francisco Aparecido Rodrigues, pároco da igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, diz ser impossível uma reflexão sobre a Páscoa, sem antes pensar nas dores do calvário. “Nos aproximamos da festa da alegria, mas ela só acontece porque a vida venceu a morte. Nesta Semana Santa, em que de um modo muito especial nos preparamos para a festa da ressurreição, todos nós, povos e sociedade em geral, nos unimos na mesma luta: salvar vidas nas mais variadas formas. Reflito então, em meu coração, que quanto mais unidos e solidários estivermos, mais fortalecidos também estaremos para atravessarmos este momento de dor, celebrando efetivamente a Páscoa, a passagem, a vida”.

O momento, do ponto de vista bíblico, padre Carlos diz que “um dia Deus libertou seu povo da escravidão do Egito e penso que Deus agora também deseja nos libertar. Nosso pensamento era de viver às margens de Deus e este vírus veio e nos desestabilizou. Deus não mandou essa doença, Deus não é mau, não quer o mal, não criou o mal, penso que isso é uma consequência do nosso virar as costas para Deus.”

Frei Francisco diz que na missa de Domingo de Ramos, celebrada no último domingo, o papa Francisco pediu aos fiéis que se deixassem guiar pela palavra de Deus na Semana Santa. “Deus salvou-nos, servindo-nos, afirmando que devemos descobrir que a vida não serve, se não se serve. Neste contexto bíblico, somos chamados a servir. A Páscoa se aproxima e o coronavírus, mesmo que invisível, cresce de maneira desenfreada no meio de nós. Mais do que nunca, devemos nos colocar como homens e mulheres do serviço e da doação. Muitas são as maneiras de servir, mas é preciso enxergarmos e buscarmos dentro de nós mesmos, aquela que melhor se aproxima das necessidades do outro, sobretudo dos que mais padecem neste tempo de pandemia.”

Padre Viana diz que “Deus criou o ser humano e sempre esteve presente na sua caminhada. Mas tem um caminho certo a seguir. Toda vez que o homem se desviou do caminho certo Deus enviou um chamamento. Exemplo disso foi o dilúvio. É como um pai chamando a atenção de seu filho. Agora não é diferente.”

O poder da oração em uma situação como esta, afirmam os padres, é fundamental para o fiel. Padre Carlos diz que “nós não devemos deixar de rezar em tempo algum e principalmente em tempos de calamidades como esta que estamos vendo acontecer no nosso meio. Por isso agora é necessário confiar no poder da fé”.

Frei Francisco diz que a oração é “sem dúvida, o que nos mantém de pé, pois ela nos faz lembrar que não estamos sós. Pela oração somos intimamente ligados a Deus, que sempre nos diz: Não tenhais medo, pois Eu estarei contigo todos os dias. Na certeza desta presença amorosa em nosso meio, continuemos unidos em oração, buscando força e coragem para enfrentarmos as adversidades do dia-a-dia, sobretudo, em tempos de pandemia”.

Padre Viana diz que em qualquer situação de penúria, que castiga a pessoa humana, a oração é fundamental. “Na oração, no recolhimento, na reflexão sempre o homem vai encontrar conforto para o físico e para o espiritual. A oração é um momento oportuno para que o homem se recolha e medite e se relacione mais intensamente com Deus”, encerra.

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