“Pandemia foi gota d’água na crise de uma década do setor canavieiro”, diz Pimenta

Avaliação de engenheiro é de que atividade acumula prejuízo sem admitir baixa produtividade

 

A crise econômica durante e depois da crise sanitária do coronavírus vai ser avassaladora para todos os setores, mas para o produtor de cana e engenheiro de produção, Cláudio Leal Pimenta, a cadeia do açúcar e etanol não tem direito de culpar a Covid 19 pelo agravamento de sua precária situação financeira. “A pandemia é apenas a gota d’água em uma situação de crise (no setor) que se arrasta desde 2008”, lembrou Cláudio.

O empresário é profundo conhecedor da produção alcooleira, atuando em duas pontas da cadeia, como fornecedor de cana plantada nas propriedades da família, e como prestador de serviços da indústria de açúcar e álcool, em sua estrutura mais sensível, do maquinário de produção. Ele é um crítico audacioso do setor no quesito produtividade, mas identifica a baixa produção não na fábrica, mas apontando para a roça. “Desde 2008, o setor acumula prejuízos, agravando a situação financeira a cada ano, sem reconhecer que caiu em uma cilada naquele ano. A pandemia não provocou a crise do setor, foi apenas a gota d’água.”

A cilada a que se refere Cláudio Pimenta foi a antecipação radical de 26 anos para dois no prazo de interrupção do corte de cana na palha. Longe de ser antiambientalista e, à época, sócio com os irmãos em uma revenda de colheitadeira, atividade beneficiada com o corte mecanizado, Cláudio se revelou profético ao condenar a antecipação às pressas e sem planejamento.

A lei estadual previa o fim das queimadas da lavoura em 2031. Por razões obscuras, logo após a crise internacional do setor de 2008, algumas lideranças das entidades que congrega fornecedores e industriais à época passaram a defender a antecipação de 2031 para 2011.

Segundo Cláudio, o setor em crise e descapitalizado se viu obrigado a investir cifras milionárias em colheitadeiras, tratores, transbordos, caminhões e outros equipamentos. O investimento, à época, para uma única frente de trabalho, superava R$ 1 milhão. Faltou dinheiro para os tratos culturais, derrubando a produtividade. Para piorar, não havia no mercado operadores qualificados para as máquinas, elevando os gastos com manutenção; o alinhamento e espaçamento das touceiras não estavam adaptados às dimensões das máquinas, provocando o esmagamento de ruas de cana. A falta de experiência dos operadores e descuidos na afiação dos facões danificavam as touceiras, o que diminui a vida útil das lavouras de oito para três anos. Esses problemas, segundo Cláudio, perduram até hoje, com redução da produtividade em mais de 50%. Dom a sucessivas perdas no setor e a falta de capital para cuidar das lavouras, hoje, apesar do desenvolvimento de variedades de cana muito mais produtivas, de insumos e defensivos mais eficiente, a produtividade por hectare é menor que a do século passado, quando a cultura foi implantada na região, no final da década de 70.

“Apesar de todas as evidências de que antecipação da mecanização foi uma cilada feita por lideranças, o setor não admite. E, todas os pedidos de recuperação judicial de usinas, esse problema não é mencionado e os prejuízos continuam se acumulando”, ressalta Cláudio;

Ele estima que a dívida do setor hoje não é paga em uma safra. Isso significa que, se toda a cana plantada no Estado for transformada em açúcar e álcool, não considerando o pagamento de fornecedores, salários e todos os custos operacionais de produção, o montante apurado não paga a dívida.

Para Cláudio, essa era a realidade do setor, que ficou mais evidente com a pandemia e em razão dela, a situação crítica vai ser mais agravada pelas peculiaridades do setor. Usinas e destilarias não têm capacidade mínima de estocagem. A cana é esmagada, transformada em álcool e colocada nas bombas de combustíveis. Com a queda brutal no consumo, o resultado é o preço ficar abaixo do custo de produção, segundo ele.

Semanas antes das medidas de isolamento social, o álcool atingia seu mais alto patamar de preço no varejo. Com a brutal queda no preço internacional do petróleo e sessenta dias de quarentena completados hoje, o álcool teve seu preço reduzido em ⅓ nas bombas. O preço do açúcar no mercado internacional se recuperou no final do ano passado, a valorização do dólar tem ajudado muito, mas Cláudio prevê queda para muito breve.

Cláudio não vislumbra o que pode ser feito no setor da cana. Aliás, no seu próprio negócio, decidiu fazer o recomendado, redobrar os cuidados para evitar o contágio de seus funcionários, o que não está sendo difícil. Sua empresa, a Caldeirenge, tem como clientes usinas e destilarias, em início de safra, indústrias alimentícias e hospitais, setores que estão a todo vapor. Mesmo assim, ele estima a queda do faturamento em 85%, nos dois últimos meses.

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